Tão Macabéa…
O nome era Macabéa. Sua mãe fez promessa: se a filha vingasse, o primeiro nome que ouvisse seria o da menina. Sua vizinha contou então sobre um livro que acabara de ler. Macabéa não era tão feio.
A mãe faleceu no parto. O pai, dezenove anos depois. Foi quando Macabéa decidiu ir ao Rio de Janeiro em busca de uma nova vida.
Era pobre. Pobre de tudo. Não possuia beleza externa e, em sua mente, nem interna. Era insegura. Insegura de tudo. Tão Macabéa quanto a de Lispector.
A vida no Rio de Janeiro não era tão fácil quanto imaginava. Trabalhava como doméstica em uma casa de Copacabana. Foi o patrão seu primeiro homem. Não que ela fosse bonita ou que ele sentisse algo por ela. Eram seus olhos, olhos inocentes. Macabéa tinha nojo, mas aceitava. Sempre aceitou tudo que lhe foi imposto sem reclamar. Tão Macabéa quanto a de Lispector.
Foi despedida cinco meses depois. Sua patroa enfim descobriu o que acontecia na lavanderia algumas vezes por semana. Macabéa sentiu vergonha. Não fazia nada direito. Fraca, submissa. Traia a todos, principalmente a ela mesma. Era infeliz, verdadeiramente infeliz. E sentia-se a culpada disso. Tão Macabéa quanto a de Lispector.
Macabéa era magra. Magra da fome que sentia e, como a tudo, aceitava. Apenas pegava um pedaço de papel e mastigava, imaginando ser coxa de vaca. Sentia falta do sertão alagoano. Tão Macabéa quanto a de Lispector.
Foi em um dia de outono que Glória, sua vizinha, apareceu em sua casa. Macabéa seria rica, afirmava, um homem cruzaria seu caminho. Um verdadeiro príncipe. Sem cavalo e sim com um carro. Quando Glória sonhava, não se enganava. O sonho se passou na frente da venda do Seu José. Macabéa deveria se apressar.
Pela primeira vez na vida, teve esperança. Pela primeira vez na vida, sorriu com sinceridade. A felicidade enfim viria.
Correu. Deveria chegar logo, mas, a cerca de 100 metros da tal venda, foi impedida. Um homem alto e loiro, como no sonho, saiu de um carro preto, uma Mercedes Benz. Olhou então para o chão e lamentou. Lá estendida encontrava-se Macabéa. Atropelada, ensangüentada. Sem vida. Tão Macabéa quanto a de Lispector.